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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A crise e suas soluções

Escrito por Wladimir Pomar

As discussões em torno do pacote proposto pelo governo Bush e seu "derivativo" aprovado pelo Congresso dos EUA também estão gerando polêmicas, algumas certamente fora de foco.

Não deixa de ser preocupante que economistas considerados de esquerda se
pronunciem a favor do pacote porque ele tentaria travar uma crise financeira com conseqüências sobre o mundo todo. Por outro lado, economistas progressistas dos Estados Unidos e de outros países têm procurado mostrar que esse pacote não é apenas ineficiente, mas tem em vista salvar somente os banqueiros.

Alguns deles têm acentuado que a preocupação das autoridades norte-americanas tem consistido em comprar ativos ilíquidos do sistema financeiro, privatizando os lucros e socializando as perdas. Estranham, assim, que o secretário do Tesouro americano, Paulson, esteja sendo chamado de socialista, por acharem que o que ele tenta fazer é salvar os que consideram culpados de atos extremamente prejudiciais.

Além disso, acusam o pacote de não tratar do problema da brutal descapitalizaçã o sofrida pelas instituições financeiras. Estas, depois de haverem visto cerca de 16 trilhões de dólares dos recursos de seus clientes serem torrados na fogueira das bolhas especulativas, estão sem condições de ofertar o crédito que a economia necessita para funcionar.

Outros concordam com a necessidade de o Estado comprar os ativos ilíquidos, desde que assegurando que os acionistas sejam os primeiros em assumir as possíveis perdas. O que seria obtido suspendendo o pagamento de dividendos e aumentando os requerimentos de capital dos bancos. Assim, embora sob enfoques diferentes, há um certo consenso em considerar que os temas centrais do salvamento do sistema financeiro norte-americano seriam a punição dos responsáveis e a regulamentação do sistema.

Firma-se, supostamente para sorte do mundo, a idéia de que a sociedade americana seria robusta, com uma democracia em pleno funcionamento, capaz de dar solução a seus problemas e aos problemas mundiais punindo os responsáveis, criando regulamentos para impedir desvios idênticos e reconquistando a confiança no sistema.

Omite-se, assim, que tais temas são secundários, e que os problemas centrais da sociedade capitalista americana são problemas estruturais do sistema capitalista, cujas soluções são temporárias, e sempre às custas dos trabalhadores e do resto do mundo.

Os pacotes apresentados para tirar o capital norte-americano da crise, tanto o de Bush, quanto o que foi aprovado pelo Congresso, não visam punir os grandes banqueiros. Como diz Muhammad Yunnus, que criou o Banco dos Pobres, "quem tinha um bilhão continuará tendo um bilhão. Quem tem vários milhões, continuará com alguns milhões. Já os pobres, aqueles que não tinham como pagar uma refeição inteira, em pouco tempo se darão conta de que poderão pagar apenas metade. E são esses os que mais sofrerão com a crise".

O problema conjuntural, na ausência de um potente movimento social de superação do capitalismo, consiste então em saber até que ponto os países emergentes poderão evitar que seus pobres sofram com a desaceleração da economia mundial e, ainda por cima, tenham que pagar as esmolas que o capitalismo dos Estados Unidos e da Europa procurarão conceder aos seus próprios pobres para impedir que eles se mobilizem contra o sistema.

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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